Baependi, imagem de Nhá Chica

Baependi, a terra de Nhá Chica

Em nosso último dia no Sul de Minas, fomos conhecer Baependi.

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Baependi é uma pequena cidade do Sul de Minas Gerais, pertencente ao Circuito das Águas. Com cerca de 18 mil habitantes, tem vocação para turismo religioso, pois ali se encontra o Santuário de Nhá Chica e tem vocação para turismo de natureza, prática de trilhas e aventura, com suas cachoeiras e montanhas. Fica muito próxima da Caxambu, 15 minutos de carro. Aliás, Caxambu era um povoado que em 1875 pertencia ao município de Baependi. Foi só em 1901 que foi criada a vila e Caxambu.

A Igreja Matriz de Baependi.
A Igreja Matriz de Baependi.

Baependi é um nome indígena de origem tupi. Segundo o dicionário Tupi-Guarani, Baependi (maependi ou mapa-endi; mbaé-pindi) significa “o limpo“, “a clareira“, em alusão a uma clareira às margens do Rio Grande que facilitava a passagem para Minas Gerais.

Na Wikipédia, segundo NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil, Baependi é um termo de origem tupi mba’eapiny que significa “rio do monstro marinho” (mba’eapina, monstro marinho indígena + ‘y, rio). Então…. não sei 😉

Igreja Matriz de Baependi. Parede lateral.
Igreja Matriz de Baependi. Parede lateral.

História da fundação da vila
O Capitão-Mor Tomé Rodrigues Nogueira do Ó e sua esposa Maria Leme do Prado estão entre os primeiros povoadores da cidade. Tomé Rodrigues construiu, em 1717, a primeira casa no local denominado “Engenho”. Sendo sua esposa devota de Nossa Senhora de Montserrat, ele ergueu uma capela rústica feita de taipas e paliça para devoção à santa espanhola. Por ter sido o responsável pelas primeiras construções para fixar-se no local, Tomé Rodrigues Nogueira do Ó é considerado o fundador da cidade. Com o falecimento de Tomé, em 1741, suas terras foram divididas entre seus filhos. Maria Nogueira do Prado, uma das filhas de Tomé Rodrigues, e seu marido João Gomes Lemos fizeram doação do terreno da Freguesia de Santa Maria de Baependy, onde foi edificada a Matriz de Nossa Senhora do Montserrat. Em 1752 o pequeno povoado se tornou freguesia e em 1814 se tornou Vila.

Igreja Nossa Sra de Montserrat.
Igreja Nossa Sra de Montserrat. Igreja matriz de Baependi, MG.

Nosso passeio
Chegamos em Baependi com uma garoa fina que teimava em atrapalhar nossa visita. Nosso primeiro passeio foi conhecer a Igreja de Nossa Sra de Montserrat.

A Igreja Matriz Nossa Sra de Montserrat
A Igreja é tombada pelo Patrimônio Histórico do Município. Os sinos da Igreja são de 1848. No seu interior tem um belíssimo trabalho de entalhe em madeira. A madeira utilizada é o cedro por ser bem resistente e difícil de ser atacada por cupim.

Trabalho em madeira no teto da Igreja de Baependi.
Trabalho em madeira no teto da Igreja de Baependi.

A Igreja tem o altar principal e os altares laterais. Por causa da Semana Santa, no local da Imagem da Pietá foi colocada a imagem de Nossa Senhoras das Dores e as outras imagens estavam cobertas com um manto roxo por tradição da Igreja Católica.

Nossa Senhoras das Dores, na Igreja Matriz de Baependi.

Igreja de Baependi.
Ana nos explicando as características da Igreja de Baependi.

Os confessionários são do século XIX, são grandes garantindo a privacidade para quem vai conversar com o sacerdote.

O confessionário da Igreja N. Sra de Montserrat, Baependi.
O confessionário da Igreja N. Sra de Montserrat, Baependi.

As autoridades, para participar das celebrações, ficavam no coro, visto que eles não se misturavam com o povo. 🙁

O coro da Igreja de N.Sra de Montserrat em Baependi.
O coro da Igreja de N.Sra de Montserrat em Baependi.

O estilo artístico dos altares laterais é o barroco mineiro, trabalhado em cima do barroco italiano. O estilo do altar principal é o rococó. O altar principal começou a ser construído em 1790, mas só foi dourado em 1862 com a doação de Nhá Chica.

O altar principal, no estilo rococó da Igreja Matriz de Baependi.
O altar principal, no estilo rococó da Igreja Matriz de Baependi.

A curiosidade é que a Igreja não está alinhada com a praça como sempre acontece, ela ficou inclinada em relação à praça porque segundo nossa guia, ela tinha que ficar de frente para a casa de um “figurão” de sua época. Se eu descobrir o nome do “figurão” eu posto aqui. 🙂

Completando a história com a contribuição da Ana
Pedi socorro para a Ana, a nossa guia local e ela me contou que quando a Maria Nogueira do Prado fez a doação do terreno para o estabelecimento da freguesia de Baependi e ereção de sua matriz, isso em 20 de janeiro de 1754, impôs a condição de ser seu orago Nossa Senhora do Montserrat e se a Matriz não fosse construída ou se sua construção se fizesse fora do terreno indicado e voltada para outro lado,  a doação ficaria sem efeito.

A Ana, nossa guia, nos contou que o primeiro cemitério da cidade era na praça em frente à Igreja e que antigamente sepultavam as pessoas na vertical porque achavam que assim elas chegariam mais fácil para o céu. Muito próximo da praça principal há esse antigo cemitério de Baependi, que acredito ser o sucessor do da praça.  É o Cemitério Central e é tombado ao patrimônio histórico, é aqui que são sepultadas as pessoas de famílias importantes e de tradição na cidade.

Fachada e portão do antigo cemitério de Baependi, MG
Fachada e portão do antigo cemitério de Baependi, MG

Depois que visitamos a Igreja, fomos conhecer o Bar Fecha Nunca. Contam que há muito anos, o bar era o primeiro que abria e o último que fechava, aí ficou conhecido como o Bar Fecha Nunca. Hoje ele fecha e a curtição da galera nas redes sociais é postar fotografia do Fecha Nunca:  fechado. 🙂  Conhecemos rapidamente, não curtimos, faltou tempo para um cafezinho ou uma gelada no Fecha Nunca…

Bar Fecha Nunca, Baependi, MG,
Bar Fecha Nunca, Baependi, MG,

O interior do bar tem uma decoração muito legal. Quando fomos conhecer era fora de horário de atendimento ao cliente, ele estava vazio “se arrumando” para mais tarde, mas não estava fechado. 😉

Bar Fecha Nunca, Baependi, MG,
Interior do Bar Fecha Nunca, Baependi, MG,

Saímos de lá ainda com uma garoa fina e voltamos ao nosso ônibus para seguimos até o Santuário de Nhá Chica. O Santuário fica no alto de uma pequena elevação, a rua é pavimentada com paralelepípedos e o motorista do ônibus “achou” que conseguia subir com aquele gigantão num piso molhado, só que não hahaha. Subimos a pé, é só uma quadra, mas de automóvel vai numa boa.

O Santuário da Nhá Chica. Baependi, MG
O Santuário da Nhá Chica.

Ao lado do Santuário de Nhá Chica fica a casa onde ela viveu. Uma casa simples, com suas coisas, seus pertences e é aberta à visitação. É um pequeno museu da Nhá Chica. No local é proibido fotografar, não sei porque.
A casinha de Nhá Chica e o Memorial encontram-se abertos à visitação, diariamente das 8 às 18 horas.

Casa da Nhá Chica em Baependi, MG.
Casa da Nhá Chica em Baependi, MG.

Após a visita à casa fomos ao santuário onde estava acontecendo uma missa. Tivemos que olhar discretamente para não atrapalhar a missa.

Quem foi Nhá Chica

Nhá Chica.
Nhá Chica.

A Nhá Chica veio para Baependi muito menina, entre 12 e 13 anos, ela era filha de escrava e não se conhece quem era o seu pai, acredita-se que fosse um fazendeiro da época. Ela tem como registro de nascimento somente o seu batismo que é de 1810. A mãe faleceu muito jovem, deixando Nhá Chica e seu irmão órfãos bem jovens.

O seu nome era Francisca Paula de Jesus. E porque “de Jesus?” Naquela época, as crianças que não tinham o nome do pai eram batizadas com o sobrenome “de Jesus”.

Em Baependi, ela viveu uma vida inteira de devoção e caridade. Em 1861 o irmão de Nhá Chica faleceu e não deixou herdeiros, então ela herdou uma pequena fortuna de 400 contos de réis, que era na época um bom dinheiro.

Com uma parte dessa herança ela ajudou as pessoas carentes, principalmente os idosos, começou a construção do santuário, e com a outra parte ela conseguiu comprar as madeiras de lei e o ouro para dourar o altar da Igreja de Montserrat.

Nhá Chica nunca se casou, dedicou toda a vida à sua fé. Se dava bem com os pobres, com os ricos e com os mais necessitados. Atendia todos que a procuravam, sem discriminação e, para todos tinha uma palavra de conforto, um conselho ou uma oração. Muitos não tomavam decisões sem antes consultá-la. Para muitos ela era considerada uma santa e assim sua fama de santidade foi se espalhando de tal forma, que pessoas de muito longe começaram a chegar em Baependi para conhecê-la, conversar com ela e pedir seus conselhos e orações.

Nhá Chica foi beatificada em 4 de maio de 2013, hoje é conhecida como Bem-Aventurada Francisca de Paula de Jesus. A campanha pela canonização de Nhá Chica começou em 1952, mas a grande graça atribuída a Nhá Chica, aconteceu em 1995, com uma professora de Caxambu que foi curada de um problema congênito no coração, sem precisar de cirurgia, apenas com as orações de Nhá Chica. A graça foi aceita pelo Vaticano.

Para saber mais sobre Nhá Chica, sua vida, sua história, sua obra, acesse o site nhachica.org

Baependi, imagem de Nhá Chica
Baependi, imagem de Nhá Chica

Fofocas palacianas

O baile da Princesa em Baependi
Texto extraído do site do Palace Hotel de Caxambu
O jornal “O Patriota” de 27 de julho de 1935, relata um episódio um tanto quanto pitoresco sobre a passagem da Princesa Isabel em Caxambu e Baependi.

O Comendador José Pedro Américo de Mattos, era figura de grande projeção política e social, gozando de grande conceito e estima em toda região do Sul da Província. Foi deputado à constituinte mais tarde e naqueles tempos, embora não fosse formado, advogava na Comarca de Baependy, graças a sua grande inteligência e sagacidade. Não obstante a empanar-lhe as suas qualidades, havia um fator terrível na época – a sua tez. A sua cor morena, bem morena, e porque não dizer mulata, era uma característica mais ou menos indiferente aos de seu sexo, no entanto, naqueles tempos, era motivo de funda abstenção por parte das senhoras. Estas, todas as vezes que a ele se referiam, não dispensavam nunca a dolorosa advertência – Inteligente sim, mas é um homem de cor!… Era esse homem de cor, que estava hospedando em Baependy, em sua residência, a primeira dama do País, S. A. Imperial a Princesa Isabel e toda a sua comitiva.

A princesa Isabel e o Conde D´Eu

Às 20h estava marcado o Baile do Paço da Câmara e o povo já de muito se aglomerava na praça… na hora exata chegava o séquito de S. A. Quando a Princesa cercada de suas damas de honra desceu de sua liteira, houve um movimento de verdadeiro suspense. Palmas e vivas, ecoaram desde o Palacete da Comendador Mattos, até à frente da Câmara. O salão estava elegantemente decorado com as armas do Império e um grande quadro a óleo de S. M. o Imperador, pendia na parede azul do salão nobre, onde se erguia o trono entre graves cortinas de Damasco. A orquestra ensaiava já as primeiras notas, enquanto ansiosamente os pares aguardavam o início do baile.

Ostentava a Princesa, um amplo vestido rodado de fulgurante seda ouro velho, que aliava a perfeição do corte à extrema e elegantíssima simplicidade; busto comprimido na telas de um mimoso corpete acoletado e seu rosto estava como que nimbado de estranha claridade. Eram seus cabelos acastanhados e se abriam numa risca central juntando-se em duas ondas por trás das orelhas, onde luziam dois puríssimos brilhantes emoldurando o rosto claro quase infantil e maviosa expressão. Toda a beleza de seus 22 anos ali resplandecia…

Abrindo o Baile, conforme protocolo S. A., dançou com o Presidente da Câmara Felício de Oliveira Mafra. O Comendador Mattos, apreciava o Baile numa das poltronas do lado oposto ao trono, pois não ousava tirar nenhuma daquelas aristocráticas senhoras ali presentes. Não obstante a perspicácia de S. A. que há muito o observava não tardou muito a se fazer sentir. A um pedido de S. A. a orquestra deu início à execução de uma linda valsa vienense… nesse mesmo instante, houve entre todos os presentes, um movimento de espanto, quase de estupor. O conde, tomando a Princesa pela mão, como se fosse com ela dançar, levara-a ostensivamente para o meio do salão e bem em frente ao Comendador, lha deu como par. Perturbou-se o Comendador Mattos, ante tamanha honra para ele. Quê?!… Vinha o Sr. Conde, dar-lhe a Princesa para dançar? A ele o homem de cor, o homem sempre repudiado pelas damas da sua terra? Não, não era possível! Mais parecia um sonho!

Princesa Isabel. Fonte: Museu Nacional

D. Isabel sorria, adivinhando no enlevo a felicidade traída inconscientemente nos gestos do Comendador. Este por sua vez, refeito de tão agradável surpresa e já de posse de sua costumeira elegância, saiu pelo salão, rodopiando a melodiosa valsa com a Princesa. Dizem que jamais presenciaram em Baependy uma peça tão bem dançada e por um par tão perfeito.

Foi tal a estupefação que, durante todo o tempo em que dançavam, suspensos, maravilhados, se deixavam todos ficar, ante tão belo espetáculo, imóveis em um grande círculo contemplando o par. Logo ali fora correu pela multidão ávida de sensações, a notícia alarmante, que era como um grito de vitória: -A Princesa está dançando com o Comendador Mattos!

Findara a valsa, sob o pretexto de uma ligeira indisposição retirou-se a Princesa do Baile. Após a interrupção causada pela retirada de S. A. recomeçaram as danças, valsas, mazurkas, schottiches e outras peças em moda na época. Coisa curiosa, daquele momento em diante todas as atenções eram voltadas para a figura do Comendador Mattos. As respeitáveis damas, as fidalgas senhoritas a ele dirigiam insistentes olhares, que eram acintosos convites. Mas, o Comendador sereno, voltara a sentar-se na mesma poltrona, e a olhar distraidamente através de um espelho de frente o movimento da rua. Neste instante em que divagava, uma elegantíssima e formosa dama, de todas a mais formosa e aristocrática, dele acercou-se insinuando-lhe sentir imenso prazer em tê-lo como par, ao que respondeu-lhe o Comendador em magnífica desculpa, que fez sucesso e esmagou de uma vez para sempre, os preconceitos até então reinantes:
– Não, minha senhora, muito obrigado, mas queira excusar-me. Porque, quem dançou com a Princesa, com outra mulher não pode dançar!

Gostaram da história do baile de princesa?

A casa do Comendador José Pedro Américo de Mattos, onde a Princesa Isabel e sua comitiva ficou hospedada era onde hoje é a Sede Social do Clube Botafogo de Baependi. Quando estiver turistando por lá, passe no local. 🙂

Sede Social do Clube Botafogo de Baependi. Foto: Ana Cristina Ribeiro.

Na entrada da sede social do clube há uma placa que faz referência a esse fato histórico, bem como a pedra da soleira da porta do antigo casarão do Comendador Américo de Mattos.

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Foto de Ana Cristina Ribeiro. Clique para ampliar.

Baependi foi a última cidade que conhecemos, aqui terminou nossa viagem. Retornamos para o Hotel União em Caxambu e no dia seguinte seguimos para casa. Agradeço de coração à Ana Cristina, nossa guia, por ter nos ensinado tantas coisas e por ter tido a paciência de fazer essas fotos do local onde ficava a casa do Comendador Américo de Mattos para eu postar no blog, isso após nós já termos voltado para casa.

Meus agradecimentos ao João pela operacionalização da viagem e faço um agradecimento especial à Nilda que não nos deixa ficar parados. Aos novos amigos que fiz, agradeço pela amizade. Gente vocês foram demais. Agendem a próxima que estamos indo! 🙂 🙂 🙂 


Há boas opções de hospedagem na região de Baependi e Caxambu. Acesse e confira.

Os locais por onde andamos
Escrevi um post para cada lugar para melhor organizar os conteúdos, clique para ler.
Turistando no Sul de Minas
Caxambu e o Parque das Águas
São Tomé das Letras, a cidade das pedras
Visitando uma Fazenda Centenária no Sul de Minas
Baependi, a terra de Nhá Chica
São Lourenço e suas águas curativas

Minas Gerais
Voltando de Baependi, fiz essa foto da janela do busão.

Referências
– Nhá Chica
– Prefeitura de Baependi
Circuito das Águas
Dicionário Tupi Guarani

Veja também

2 comentários sobre “Baependi, a terra de Nhá Chica

  1. Parabéns pela magnífica reportagem e fotos fora de série de nossa excursão ao Sul de Minas (Caxambu, São Lourenço, Baependi, São Tomé das Letras, Fazenda e Cachaçaria, dentre outros “pousos”). Vale a pena ver e ler o conteúdo, mas muito melhor é vivenciar essas paisagens pessoalmente. Obrigado por nos brindar com essas lembranças e pela companhia nos passeios.

    1. Obrigada Nívio, fico imensamente feliz com seu comentário, é uma enorme motivação para eu continuar escrevendo.
      Tive a assessoria da Ana (nossa guia) para algumas informações sobre Baependi, principalmente aquela história da Igreja estar posicionada inclinada em relação à praça e também sobre o tombamento do Cemitério Central. A foto do grupo na Pirâmide em São Tomé, me foi enviada pela Astelpar, é da série de fotos do Aramburo.
      Abs

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