A Capela Sistina medieval, um tapa na cara do papa e porque você precisa conhecer Anagni

Tá de bobeira perto de Roma? Então passa aqui!

Anagni, também conhecida como a cidade dos papas, é uma comuna italiana da região do Lácio na província de Frosinone que fica a uns 70 km de Roma. Tipicamente italiana, a cidade tem atrações que vão desde visitas a sítios arqueológicos do pleistoceno inferior e médio até uma vida noturna agitada. Conta com um jeito pitoresco e lugares dignos de cartões postais a cada esquina. Por estar em um ponto alto da região, a cidade fornece lindas vistas panorâmicas de Frosinone em diversos locais.

Apesar de pequenininha, a cidade deu origem a 4 dos mais importantes papas da história do catolicismo e já foi palco de acontecimentos históricos memoráveis, como o famoso “ultraje de Anagni”. Vou começar por ele e você já vai entender por quê.

Parque Parco Della Rimembranza.

Lo schiaffo di Anagni (A bofetada de Anagni)

Que história é essa de sopapo na cara? Me perdoe a chatice de historiadora, mas como uma, eu tenho que explicar direitinho!

Resuminho…

Durante o século XIV a Europa passava por uma crise (a tal “crise do século XIV”, um tanto autoexplicativo hehe) em que o pensamento do homem medieval, os modos da economia, a igreja e o modo de fazer política da Era Medieval não mais atendiam a sociedade que agora tinha outras necessidades e anseios. Essa crise deu origem ao renascimento e ao humanismo, que introduziram a Europa à Era Moderna. Lembra das 95 teses de Martinho Lutero, da queda do prestígio da igreja católica, etc? Então, essas ideias e questionamentos começaram a surgir bem antes, ainda no século XIV.

Foto da rua Strada Vittorio Emanuele.

Voltando para Anagni. Existia uma rixa entre o rei francês Felipe, o Belo (o que extinguiu a ordem dos templários) e o papa Bonifácio VIII (natural de Anagni e onde residia durante as férias). A questão é que Felipe, o Belo, queria acumular poderes nas mãos do rei (ele), já o papa era adepto da permanência da influência da igreja nas leis e manutenção da ordem, como sempre foi na Idade Média (lembra que agora as pessoas estavam começando a questionar a ordem em que as coisas sempre funcionaram?). Eis que Bonifácio VIII promulga a bula Unam Sanctam que frisava a primazia papal, e assim excomunga Felipe.

Aí começou a treta!

Foi um tal de querer depor o papa, o papa resiste, daí julgamento, mais bula, um ofende o outro, e assim vai. Até que Felipe envia tropas até Anagni para dar aquela intimada no papa. Junto com os franceses estavam alguns inimigos italianos de Bonifácio, entre eles Giacomo Sciarra Colonna um importante militar de Anagni.

A família Colonna é uma poderosa família que influenciou muito na política italiana medieval e renascentista, estes eram inimigos de outra família igualmente importante e influente, os Caetani, e… adivinha quem era da família Caetani? Bonifácio VIII! Então Giacomo Colonna saqueia o bairro da família Caetani, adentra o palácio de verão dos papas e prende Bonifácio VIII exigindo sua renúncia, mas o papa resiste, aí o Giacomo vai lá e dá um tapa.

Não, não é qualquer tapa. É um tapa de luva! E não é qualquer pessoa. É o papa! São poucos que podem falar com um papa, imagine alguém dar um tapa num papa?! Isso foi uma ofensa e audácia sem tamanho para a época. Dizem que o tal tapa fez até o velhinho cair da cadeira, coitado. Enfim, o papa foi preso, agredido verbalmente e fisicamente, ao ponto de ter a saúde seriamente debilitada, o evento levou Bonifácio a falecer no mesmo ano. A cidade de Anagni, que ajudou ativamente os Colonna durante o atentado, arrependeu-se amargamente, mas aí já era tarde.

O papa sucessor, Bento XI, morreu pouco tempo depois por envenenamento, então… curiosamente um papa francês é eleito e este, bem amiguinho da monarquia francesa, estabelece sua residência em Avignon (França) ao invés de Roma. Isso depois dá origem ao Grande Cisma, que foi uma treta que durou quase que meio século. O Grande Cisma é um dos principais fatores responsáveis pela queda do prestígio da igreja católica, que levaria então o surgimento do protestantismo.

“Mas por que você está me contando isso?”

Bom, primeiro porque é uma história sensacional, segundo porque a questão papal é o cerne do turismo de Anagni e é por onde você vai entender a cidade.

Palácio do Papa

Fachada do palácio dos papas.

O palácio é legal de visitar por dentro porque ele se conservou bem antigão ainda, há salas que parecem de contos de fadas e lá fica a sala onde o papa Bonifácio VIII levou o famigerado tapa.

Como visitar?

Local: O palácio fica no caminho para a catedral, na Via Maggiore – 240, um pouco antes da Piazza Papa Innocenzo III, a entrada é bem simples, apenas um portão, se você não prestar atenção na sinalização, não vai perceber.

Preço: 5€ adulto, 3€ a reduzida. Todos os tipos de entrada, inclusive a gratuita, contam com um audioguia. 

Horários: 

  • 9:30 – 13:00 (último ingresso 12:30)
  • 15:00 – 19:00 (último ingresso 18:30)

Nota: em dezembro os horários podem mudar.

Obra de arte do palácio de Bonifácio VIII.

A Capela Sistina Medieval

Praça Papa Innocenzo III com vista para a catedral.

Quando eu fui, fiquei na praça um tempão tentando achar a dita catedral porque jurei que esse negócio era um prédio público, palácio, prefeitura, algo assim. Mas é essa mesmo, meio esquisita por fora, mas… entre só pra ver o que você não vai encontrar!

Nave lateral da catedral com as cadeiras transparentes.

A catedral, ao contrário de muitas, é bem clara, entra muita luz pelas janelas deixando ela com um ar encantador. A Catedral Basílica de Santa Maria Anunciada de Anagni foi fundada em estilo romano entre os séculos XI e XII, tendo seu interior modificado para o estilo Gótico por volta do século XIII (e teve o imperador Bizantino Michael VII Doukas como patrono!). O altar conta com pinturas barrocas junto de uma incrível coluna adornada de mosaicos. Na catedral estão os restos mortais de grandes nomes como São Magnus e o santo mártir Thomas Becket da Cantuária.

Ao contrário da maioria das catedrais, em Anagni, você não olha o teto, mas o chão! As cadeiras são transparentes justamente para os turistas poderem admirar os belíssimos mosaicos!

File:Cattedrale di Anagni. Interno.jpg
Nave central da catedral de Anagni. Foto: Wikipedia

Mas… vamos à principal atração! A cripta!

A entrada da Cripta de São Magnus fica em uma das laterais dentro da igreja, mas fique atento! Tem horários para a visita por causa da luz. Os afrescos são muito antigos e delicados e como já sabemos, a luz danifica as pinturas (por isso os guardinhas tão sempre gritando NO FLASH PLEASE nos museus, etc) então a luz não pode ficar acesa o tempo todo, há intervalos entre acender e apagar a luz. Os intervalos são curtos, é só esperar uma meia hora que a luz acende e você pode descer as escadas. MAS FIQUE ATENTO: não importa se você tá lá dentro ou não, o que importa são os afrescos, então sim, a luz apaga independente de você estar lá ou não.

Eu e uma amiga estávamos visitando a cripta, observando os afrescos com minúcia, discutindo questões históricas até que… tudo fica escuro. Eu e ela… sozinhas… numa cripta… medieval… no escuro. Naquele dia nós descobrimos que temos potencial para ser o Usain Bolt. Pense em duas brasileiras num desespero só saindo correndo debaixo do chão duma catedral, cena nada glamourosa. Moral da história, se você gosta de história e arte, você provavelmente vai demorar na visita e provavelmente vai ficar no escuro, não se assuste.

Nave central da cripta. Foto: Cattedrale di Anagni

Os afrescos da cripta são datados dos séculos XII e XIII com temáticas que vêm desde a Arca da Aliança até o Apocalipse. É interessante perceber que a arte é medieval e é no estilo Bizantino, reforçando o fato de que na antiguidade o mundo mediterrâneo era coeso, o mediterrâneo europeu se identificava como uma unidade cultural, comercial e política com o Oriente Médio e Norte da África e não em unidade com o restante da Europa. Fenômeno que ainda perdurou no começo da Idade Média. Não vou me adentrar muito nos afrescos porque historiador quando começa não para mais.

Alguns afrescos da cripta. Foto: Discovery Guided Tours
Como visitar?
Entrada da cripta.

Local: fica na Piazza Innocenzo III.

Horários: A catedral abre todos os dias durante o verão das 9:00 até as 13:00, reabrindo das 16:00 até as 19:00.

No inverno abre no mesmo horário, mas retoma as 15:00 até as 18:00.

A luz da cripta fica acesa por 15min e apagada por 30min, durante todo o período de funcionamento da igreja.

Preços: O ticket custa 9€ e inclui visita à cripta, ao relicário, ao museu, ao oratório de Thomas Becket e algumas outras partes da catedral inacessíveis a não pagantes.

 

Prefeitura

Composta por um túnel de arcos, a antiga prefeitura conta com afrescos nas paredes de quando ainda era o mercado da cidade. Hoje ali se encontra um restaurante.

Dica de restaurante!

O restaurante se chama Hernicvs, fica na antiga prefeitura da cidade. O ambiente não precisa nem comentar, é maravilhoso. O cardápio varia entre preços relativamente acessíveis e outros mais carinhos, eu pedi um prato de massa e dividi com uma amiga uma garrafa de vinho, o jantar para mim saiu 17,50 € ao todo. O carbonara servido lá é o típico da região! Ele fica localizado na Strada Vittorio Emanuele, é inconfundível, fica num pátio em baixo de longos arcos, e eles permitem reserva sem adicional. Na praça ao lado é montado um cinema cult a céu aberto para a população durante o verão.

O restaurante Hernicvs é exatamente em baixo destes arcos, aquela porta que se vê ao fundo da foto é outro restaurante, que fica do outro lado da estreita rua.

Sítio Fontana Ranuccio

Este sítio arqueológico paleohumano é datado do pleistoceno médio e contém vestígios de Homo Heidelberghensis (poucos lugares no mundo contém vestígios dessa espécie humana), além de vários vestígios de megafauna.

<p>Recupero di corna di <em>Bos primigenius</em></p>
Chifres de Bos primigenius sendo retirados do sítio de Fontana Ranuccio. Foto: ISIPU

O sítio é escavado nos meses de verão, principalmente em julho, fica localizado na Via Colle Ranuccio. Para visitá-lo nesse período, você pode passar no museu e laboratório do Istituto Italiano di Paleontologia Umana que se abriga no Convitto Nazionale Santa Regina Margherita (fica na Viale Regina Margherita, ao lado da Igreja de San Vincenzo) e conversar com os coordenadores e pesquisadores sobre a possibilidade de visitação.

Fachada do Convitto Nazionale Santa Regina Margherita. Foto: Perte Online

Como fui lá a trabalho, não sei exatamente os horários de funcionamento do museu, pois eu ficava trabalhando no laboratório ou no sítio durante horário comercial, mas eles são muito solícitos e devem informar na recepção do Convitto. Já vou avisando que a secretária é napolitana! Então quando falar com ela você vai entender grandes nadas e ela vai entender um pouco menos que grandes nadas. Mas ela é muito simpática e atenciosa e aceita comunicação por mímica.

O Convitto antes de ser uma escola e laboratório de arqueologia, era um convento dominicano do século XIV, é um local visto com carinho pelos cidadãos já que é uma escola tradicional da região.


O que mais?

Fachada do Palácio Barnekow.

– No centro da cidade você pode encontrar a casa do artista Tommaso Gismondi que fica aberto à visitação. A casa fica no centro, próximo à igreja, dentro permanece uma vasta exposição de suas obras. Lá você pode adquirir postais muito bonitos de gravuras de Anagni feitas por Gismondi.

– Perto de Anagni se encontra um outro sítio arqueológico que um dia foi uma vila romana, a Villa Magna.

– Na cidade há também um aqueduto romano, o Arcazzi di Piscina.

– Perto do restaurante Hernicvs, há uma famosa casa: o Palazzo Barnekow, onde hoje funciona uma pizzaria.

– Não deixe de experimentar os sorvetes! Há muitas sorveterias ótimas em Anagni e com um precinho camarada.

Onde ficar?

Bom, eu fiquei no Convitto, pois é onde os pesquisadores e alunos ficam hospedados para os trabalhos no sítio arqueológico. Mas, minha alternativa para caso não houvesse vaga no Convitto era o Bed & Breakfast La Scala Fiorita, fica no centro histórico, a umas 6 “quadras” de distância da praça da catedral. No Booking.com dá pra encontrar opções bem boas, desde pequenos alojamentos até hotéis. Também tem a opção de ficar em Roma e fazer um bate-e-volta pra Anagni.

Praça Bonifácio VIII.
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5 comments

  1. Parece ser bem interessante e rica a cidade… pelas fotos eu já adorei, a história é bem legal também …

  2. Com tantas belezas e tretas históricas, é claro que fiquei com vontade de conhecer, sobretudo a Catedral Basílica de Santa Maria Anunciada de Anagni, amei a iluminação e a nave central!

  3. Adorei saber sobre Anagni, Maria Vitória, especialmente a história do tapa no Papa! Rimou.. Rs. Texto muito bom e belas imagens. Parabéns!

  4. Nunca tinha ouvido falar desse lugar, mas achei bem curioso e fiquei com vontade de conhecer! =)

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